quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Depois da Morte


A notícia do “assassinato” de um colega psicanalista negro pelo racismo — esse câncer que estrutura tantas formas de relações em nosso planeta — deixou-me triste e profundamente abalado. Usei a expressão "assassinato" porque, em 1846, antes do Manifesto Comunista, Karl Marx escreveu um ensaio sobre o efeito da sociedade nos casos de pessoas que tiravam a própria vida, demonstrando como o suicídio está enraizado no ambiente social e na alienação, e não apenas em causas individuais. Émile Durkheim, em 1897, publicou “O Suicídio: Um Estudo de Sociologia”, que também corroborava com as ponderações de Marx sobre o tema, portanto, não tenho como tratar o suicídio como um problema individual, sem considerar como as imposições sociais de ideiais brancocêntricos ceifam vidas negras.

Eu estava desconfortável e, diante da constatação de mais uma constatação do processo necropolítico da nossa sociedade, saí para correr um pouco e tentar me organizar de alguma forma. A corrida foi estranha... Diante de mim estava o sol, pondo-se entre carros e postes por trás de uma grande avenida de asfalto. Meus passos empurravam o solo, impulsionando-me para a frente; meus músculos pareciam fortes, incansáveis, e o suor escorria pelo meu rosto. Mas, apesar da música cadenciada que entrava nos meus ouvidos através do headphone, minha cabeça sentia o cansaço do meu corpo — um cansaço que pesava mais do que os noventa e cinco quilos que eu deslocava enquanto corria, passo após passo, na Av. Paralela.

Um cansaço ancestral, uma dor herdada, que não estava no meu corpo, mas em minh’alma, lacerando meus pulmões, meu cérebro, minhas artérias, veias e o meu coração. Mas, como diz a canção do Lazzo: “minha alma resiste e meu corpo é de luta, eu sei o que é bom e o que é bom também deve ser meu”. E, apesar de suar e lacrimejar, sentindo o vento empurrar o meu corpo no sentido contrário, eu segui, passo ante passo, ultrapassando os jovens recrutas que saíam do quartel do exército, falando algo que o som do headphone não me deixou escutar, homens pretos seguindo seus caminhos e talvez pensando como eu: que bom poder voltar para casa — ainda que com a cabeça e o corpo exaustos.

sábado, 6 de maio de 2023

Parabéns Psicanálise (!?)


 

Hoje é o dia em que se comemora o nascimento do neurologista e pai da Psicanálise, Sigmund Freud, e por esse feito (ser o Pai da Psicanálise) também é celebrado o Dia da Psicanálise ou do psicanalista se preferir, se for da Psicanálise, comemoramos hoje o aniversário desta jovem senhora de 123 anos, criada desde muito, mas apresentada oficialmente ao mundo através do texto “A Interpretação dos Sonhos”, lançado em 1900. Muita coisa aconteceu de lá para cá e as demandas observadas no século passado se transformaram em outras coisas, a Psicanálise adaptou-se e hoje não para, não para bens, nem maus, não para na pista, nem no tempo, hoje é dia de agradecer a Freud pelo seu legado, e a cada psicanalista que se envolve com seu desejo delegado pelo seu próprio processo analítico e compromisso com o lugar onde vive e de onde vem. A todos e todas que se dedicam, que (se) questionam, que (se) irritam, que acreditam, aos que duvidam, mas que ainda assim e que a-pesar de tudo seguem fortalecendo uma forma de ler o mundo chamada Psicanálise: Não para bens. Avante!

quinta-feira, 2 de março de 2023

Não passarão!


A expulsão do vereador caxiense xenofóbico pelo seu partido é mais do que necessária, porém ainda é pouco... Xenofobia é crime! E quando um representante do povo reproduz um discurso como esse é imprescindível que ele seja punido, pois não podemos mais admitir esse tipo de comportamento sendo disseminado impunimente. O problema, entretanto, é a estruturação de um status quo, presente nas fétidas entranhas da nossa sociedade. Lembremos o nosso Ministro Silvio Almeida que nos diz em livro “Racismo Estrutural” o seguinte:

 

Portanto, entender a dinâmica dos conflitos raciais e sexuais é absolutamente essencial à compreensão do capitalismo, visto que a dominação de classe se realiza nas mais variadas formas de opressão racial e sexual. A relação entre Estado e sociedade não se resume à troca e produção de mercadorias; as relações de opressão e de exploração sexuais e raciais são importantes na definição do modo de intervenção do Estado e na organização dos aspectos gerais da sociedade.

“Falta de cultura pra cuspir na estrutura”, foi o recado do Raul, tão atual na compreensão do letramento político da população, para dar condições reais de combate a reprodução de manifestações xenofóbicas, racistas, sexistas, compreendendo que enquanto permitirmos de forma mansa, atitudes como as do vereador caxiense Sandro Fatinel pouco coisa mudará em nossa sociedade de maneira efetiva e concreta, pois entender como se engendra a manutenção do tácito acordo branco de poder é a única forma de fazer frente às desigualdades ainda tão pungente entre nosso povo. 

                Uma sociedade que se alimenta do lucro e do preconceito de raça vendido como liberalismo meritocrático, na verdade, está impondo o “capitalismo racial”. (Pacto de Branquitude” – Cida Bento)

 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

O novo parece velho!

 


Hoje completo quarenta e seis anos e estou me sentindo novo... Pode parecer estranho, mas é tudo inédito pra mim, eu nunca tive quarenta e seis antes, a partir de hoje o que virá será pela nova idade. Novidade, ainda que se amontoando em cima de outras experiências, ressignificando-as, tudo será novo, eu sou um velho novo e percebo que neste devir o novo não se cessa, pois é de novo, de novo e novamente, uma nova mente se projeta a partir de hoje. Quero dar os parabéns a todo mundo que vive em mim, quero falar com meu amor e do meu ódio em ser quem sou, em achar que sei, em oscilar dentro de mim, cambaleando entre tantos eus. Trôpego que sou do eu... e doeu e dói, mas passará, assim como a vida que passou até aqui, me fazendo ser quem nem sei, mas acho que sei: parabéns, para que os bens não parem e que os males também, há que viver as vicissitudes de ser eu incompleto, ser humano.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Day after!


 

O dia de ontem começou tenso, estranho, com um sobressalto, um susto sem razão – pelo menos, acho melhor não querer racionalizar acordar às 6h no domingo... E o dia foi passando, com um Q de ansiedade e esperança. Ainda pela manhã, atravessei a cidade de moto e fui votar, 13 verde, 13 verde e depois apareceu na tela da urna eletrônica a palavra “FIM”, ledo enganinho! Na verdade, era só o começo, mas também podemos pensar que era o começo do fim de um período nefasto para a democracia, a economia, a política, para a história deste enorme e diverso país. Ontem senti orgulho de ser nordestino e não foi um sentimento recorrente, foi novo. Nova também era a esperança, renovada a partir da aposta num futuro melhor. Luis Inácio “Lula” da Silva foi reeleito em segundo turno, na eleição mais apertada da história do Brasil; eis que agora ele tem pela frente um enorme desafio de unificar um país que “confia desconfiando”, mas esse é um grande país e não pode ser visto como algo a ser salvo por uma única pessoa, TODOS temos responsabilidade pelo futuro que queremos, precisamos partilhar boas atitudes, boas condutas, começar a construir bons hábitos, pensando na máxima de que JUNTOS SOMOS MAIS FORTES. Em agosto de 2018 fiz um texto intitulado: “Você é mais forte que o medo! E outras razões para não votar no “Messias”... e nesse texto escrevi:

A plataforma de governo do Jair Bolsonaro é o medo, esse medo que temos de viver num país perverso, corrupto, inseguro e inescrupuloso, mas o problema é que as promessas que ele faz para promover a nossa "segurança" são vazias em sua essência, pois ele simplesmente não acredita na equidade entra as pessoas(eu pensei em escrever igualdade, mas a verdade é que não somos iguais e essa é a "magia" de viver em sociedade: respeitar os diferentes, porque também o somos, mesmo sem entender, respeitar as limitações e as potencialidades dos outros).

 

Ontem demos um passo importante em direção à coragem, vamos fazer valer o nosso voto de confiança. Acordei mais leve, mas não completamente feliz, pois saber que o crescimento do bolsonarismo é algo real no nosso país me deixa extremamente triste, porque esse é um sintoma importante do nosso povo, uma reação sistêmica, de “retorno do recalcado”, como diria Freud, só que no caso de uma sociedade é extremamente preocupante e perigoso.

Entretanto vencemos! E mesmo que não esteja completamente feliz, estou bastante feliz. Te convido a unir forças, a partir de hoje (o dia seguinte) começar a ser a mudança que queremos ver em cada um, pois isso se espalhará por onde passarmos e com certeza fará de nosso país um lugar melhor e mais justo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Somos muito bons em sermos maus.


 

De todas as pessoas que podem nos machucar, somos os melhores em fazer isso, conhecemos detalhes sobre nós mesmo que mais ninguém sequer imagina, somos algozes vorazes quando o assunto é lidar conosco. Criamos expectativas que desenham realidades imaginárias só pelo mórbido "prazer" de nos decepcionarmos; nem sempre é algo consciente, mas fazemos isso para podermos reclamar, sofrer ou simplesmente sentir algo diferente do conforto que quase nunca nos autorizamos a ter. 
Freud em seu texto "Os que fracassam no triunfo" já nos alertava sobre a nossa potencial tendência em não saber lidar com o sucesso: "Tanto maior será a surpresa, mesmo a confusão, quando o médico descobre que às vezes as pessoas adoecem justamente quando veio a se realizar um desejo profundamente arraigado e há muito tempo nutrido. É como se elas não aguentassem a sua felicidade, pois não há como questionar a relação causal entre o sucesso e a doença.
É estranha, mas não incomum, esta situação: criamos bases sólidas e estáveis para apoiar as nossas inseguranças e lá, elas podem desequilibrar, ao seu bel prazer, toda a estrutura da nossa psique. Entretanto, não é fácil mas, é possível combater a tendência de auto depreciação e autosabotagem ligadas a acharmos que somos merece-dores, a palavra é o caminho e para além da palavra, a linguagem é uma possibilidade, uma forma com a qual podemos transcender, "sublimar", pois nos permite ser transforma-dores e construir uma base paralela que sustente o nosso desejo e a angústia de bordejá-lo sem culpas. Por isso a Psicanálise é uma via que dá caminho para (re)pensar o lugar do sujeito e como ele(a) se trata, ou se maltrata, como desenha, e às vezes desdenha, a sua própria história de vida, para com isto lidar melhor com o equilíbrio dessas forças constitutivas presentes em cada um de nós.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Tchau Jajara!



Se a vida é uma Escola, há realmente professores que são infinitamente melhores que outros, são verdadeiros MESTRES, pois ensinam não apenas com as palavras, mas com exemplos, nos mostram possibilidades onde sequer enxergamos uma tentativa. Dentre tantos bons professores, a vida me deu um presente que eu simplesmente usufruía e agradecia, absorvendo cada pérola de conhecimento que ele me presenteava, um gigante preso num corpo de 1,68m, um preto, mestiço, com nome de índio: Ubirajara (que em Tupi significa "Senhor da vara"), "Bira" para alguns, "Jajara" pra mim. Um exemplo de como é possível viver a vida espalhando por onde passa coisas boas. Humano, portanto imperfeito, mas que dentro da sua humanidade estimulava o melhor nas pessoas, pelo menos em mim, são incontáveis as lições e aprendizados que ele me ensinou, me mostrou como ser mais, apesar das dificuldades que a vida nos impõe, mostrou com seu exemplo que podemos SER humanos e deixar nossa marca no mundo.

Obrigado Jajara, por ter sido um dos melhores mestres que a vida me apresentou. Mais do que um tio, um tutor, um exemplo, eu sempre te considerei um irmão. Que sua alma tenha paz!