A notícia do “assassinato” de um colega psicanalista negro pelo racismo
— esse câncer que estrutura tantas formas de relações em nosso planeta —
deixou-me triste e profundamente abalado. Usei a expressão
"assassinato" porque, em 1846, antes do Manifesto Comunista, Karl
Marx escreveu um ensaio sobre o efeito da sociedade nos casos de pessoas que
tiravam a própria vida, demonstrando como o suicídio está enraizado no ambiente
social e na alienação, e não apenas em causas individuais. Émile Durkheim, em
1897, publicou “O Suicídio: Um Estudo de Sociologia”, que também
corroborava com as ponderações de Marx sobre o tema, portanto, não tenho como
tratar o suicídio como um problema individual, sem considerar como as imposições
sociais de ideiais brancocêntricos ceifam vidas negras.
Eu estava desconfortável e, diante da constatação de mais uma
constatação do processo necropolítico da nossa sociedade, saí para correr um
pouco e tentar me organizar de alguma forma. A corrida foi estranha... Diante
de mim estava o sol, pondo-se entre carros e postes por trás de uma grande
avenida de asfalto. Meus passos empurravam o solo, impulsionando-me para a
frente; meus músculos pareciam fortes, incansáveis, e o suor escorria pelo meu
rosto. Mas, apesar da música cadenciada que entrava nos meus ouvidos através
do headphone, minha cabeça sentia o cansaço do meu corpo — um
cansaço que pesava mais do que os noventa e cinco quilos que eu deslocava
enquanto corria, passo após passo, na Av. Paralela.
Um cansaço ancestral, uma dor herdada, que não estava no meu corpo, mas
em minh’alma, lacerando meus pulmões, meu cérebro, minhas artérias, veias e o
meu coração. Mas, como diz a canção do Lazzo: “minha alma resiste e meu corpo é de luta,
eu sei o que é bom e o que é bom também deve ser meu”. E, apesar de suar e
lacrimejar, sentindo o vento empurrar o meu corpo no sentido contrário, eu segui, passo ante passo,
ultrapassando os jovens recrutas que saíam do quartel do exército, falando algo que o som do headphone não me deixou escutar, homens
pretos seguindo seus caminhos e talvez pensando como eu: que bom poder voltar
para casa — ainda que com a cabeça e o corpo exaustos.

Seu texto denuncia algo que muitos insistem em não ver: vivemos em uma sociedade estruturalmente adoecida. Não se trata apenas de dores individuais, mas de um sistema que naturaliza violências, silencia sofrimentos e transforma desigualdades históricas em rotina. Quando vidas negras são atravessadas pelo racismo cotidiano, o adoecimento não é isolado — é social, político e coletivo.
ResponderExcluirUma sociedade que hierarquiza existências, que sustenta privilégios às custas da exclusão, é uma sociedade que precisa urgentemente se rever. Enquanto insistirmos em tratar como casos individuais aquilo que é fruto de estruturas, continuaremos mascarando sintomas sem enfrentar a doença. O que adoece o sujeito é, muitas vezes, o próprio ambiente que o nega, o sufoca e o desumaniza. Reconhecer isso é o primeiro passo para romper o ciclo e reconstruir relações mais justas e verdadeiramente humanas.